Trip difícil, longa e cheia de logística, então optamos por contratar uma agência de viagens para nos auxiliar no roteiro, que foi repleto de detalhes. E que surpresa boa, não poderíamos ter tomado decisão melhor. Contratamos os serviços da @triplatina e fomos em uma road trip, dois carros, 9 pessoas, que viraram amigos e mais de 3.000km percorridos. Aventura com direito a sobrevoo nas linhas de Nazca, caminhadas a 5.000 metros de altitude, passeio de barco no lago Titicaca, buggy pelas gigantescas dunas do oásis de Huacachina, tour pelas ilhas Ballestas em Paracas, apreciamos o voo dos Condores no vale de Colca, na cordilheira dos Andes, e muita cultura Inca no vale sagrado na cidade de Ollantaytambo. Fomos a Cusco e Lima, além é claro de Machu Picchu e muitas surpresas boas pelo caminho, como vulcão ativo, plantações gigantescas de oliveiras, montanhas coloridas, alpacas e llamas para todos os lados. O passeio pede muito chá de coca, disponível em todos os hotéis, pois a altitude realmente afeta. A gastronomia de um país eleito por vários anos consecutivos como melhor destino culinário do mundo pelo World travel Awards, e que possui vários restaurantes no top 50 do mundo, não poderia deixar de merecer atenção especial.
No caminho encontramos muito ceviche (de Truta no interior e de linguado no litoral). Existem relatos que versões do ceviche existem há mais de 2000 anos, na antiga civilização Moche, onde ao invés do peixe ser marinado em limão, era marinado com banana e pêssego. Com a chegada dos espanhóis na América do Sul, essa receita teria sido adaptada com limão e chegado mais perto das receitas do ceviche que é mais comum hoje em dia. Dá pra gente dizer então que o ceviche que conhecemos hoje é de origem indígena-espanhola, no período da colonização.
Na visita que fizemos as salinas de Maras, compramos deliciosos chocolates com sal e o contraste é uma explosão de sabores.
Mas afinal, o Peru consegue produzir vinhos a nível de Argentina, Chile e Brasil?
A resposta esta em uma vinícola que se destacou no guia descorchados, e que pela primeira vez foi considerada pela publicação uma das melhores referências vitivinícolas das Américas.
Tacama é o espaço por onde passaram grandes nomes da enologia. O francês Robert Niederman, por exemplo, foi o sucessor de uma distinta dinastia de vitivinicultores franceses e, ali, mestre de muitos, como Philippe Dhalluin, enólogo e agora diretor do famoso Château Mouton Rothschild.
Robert Niederman, que tinha sido conhecido na Argélia como "o médico" pela sua capacidade de preparar maus vinhos, queria encontrar uma solução e recordou uma conversa que teve com Émile Peynaud, o pai da enologia moderna, antes da sua chegada a Tacama. Na palestra, Peynaud contou a ele sobre sua descoberta: a fermentação malolática. E ele estava incrédulo. Desta vez, intrigado, Niederman o chamou para contar o que havia acontecido em Tacama, Peynaud o guiou passo a passo e seu processo funcionou. Desde aquele evento, não há vinho tinto Tacama sem fermentação malolática. A uva destaque da região se chama Quebranta, que vem do cruzamento das primeiras variedades que chegaram ao Peru, como a Negra Criolla e a Mollar.
Quebranta é uma variedade tinta, embora tenha um cacho de tamanho médio que não é completamente colorido com diferentes tons de bagas vermelho-azuladas (do rosa ao roxo), podemos até encontrar alguns verdes. Devido à sua classificação em variedades não aromáticas, o Pisco Quebranta não é muito expressivo no nariz. É na boca onde este destilado se expressa com maior intensidade, apreciando notas de banana, maçã verde, passas pretas, pecans, feno e toques herbáceos. Tem uma grande capacidade de concentrar altos indicadores de doçura na maturidade, o que lhe permite obter uma maior quantidade de álcool e, portanto, um bom rendimento no destilado. É uma variedade resistente e rústica com muito caráter e personalidade. É sem dúvida o mais produzido e o mais conhecido das chamadas uvas pisquenhas. Porém… Tacama fez seu vinho com ela, o Tonuz possui 80% Quebranta e 20% Tannat, resultando em um tinto fresco e amigável com caráter frutado.
Don Manuel Tannat (92 puntos), Don Manuel Petit Verdot (91 puntos), Selección Especial Petit Verdot (91 puntos), Selección Especial Carménère (88 puntos), Selección Especial Malbec (88 puntos), “O” Malbec (90 puntos), Blanco de Blancos Sauvignon Blanc (88 puntos), Blanco de Blancos Sauvignon Blanc-Chardonnay-Viognier (86 puntos), Gran Tinto Malbec-Tannat-Petit Verdot (87 puntos), Gran Tinto Crianza Malbec (86 puntos) y Gran Blanco Sauvignon Blanc-Chardonnay-Chenin Blanc (86 puntos).
O vale de Ica, onde estão os principais produtores de vinhos de alta gama do Peru, guarda também a rota do Pisco… Nós fomos atras de vinhos mas nos deparamos com o tal de Pisco, para tudo! Que bebida é essa? Na bodega Tacama fomos recebidos pelo embaixador da marca, Alexander Holender, que nos brindou com uma aula de Pisco, uma bebida que pode ser produzida mais “secas” voltadas para drinks ou ainda extremamente aromáticas para serem consumidas puras.
O vinho produzido no Peru era tão bom que começou a ser exportado para terras ibéricas, e os moradores da Espanha não gostaram muito da notícia, motivo pelo qual o rei Felipe II impôs uma restrição à saída desta bebida, que acabou sendo aceita em 1613. Diante disso, os produtores da costa peruana tiveram que ser criativos e intensificaram a produção de pisco.
Este esclarecimento é importante. No Peru se produz destilado, e não aguardente. Aguardente é uma mistura de açúcares residuais e sua graduação alcoólica é corrigida, enquanto o destilado não recebe nenhum outro ingrediente e não pode receber influência de sabores externa, como barrica de carvalho por exemplo.
Para a criação deste destilado são usadas as denominadas uvas pisqueiras, que se classificam em dois grandes grupos: não aromáticas- quebranta, mollar, negra criolla e uvina-, e as aromáticas -italia, moscatel, torontel e albilla. Estas variedades são as que geram os seguintes 3 tipos de pisco:
Puro: obtido com uma única destilação de mostos frescos completamente fermentados e exclusivamente de uma única variedade de uva pisqueira.
Mosto Verde: obtido de uma única destilação de mostos frescos de uvas pisqueiras com fermentação incompleta.
Pisco acholado: adquirido da mistura de uvas pisqueiras, assim como de mostos frescos de uvas pisqueiras com fermentação completa ou incompleta.
Nosso preferido foi o mosto verde de uvas aromáticas, para tomar puro e o Puro da uva Quebranta, para drinks como o famoso Pisco sour.
De Tacama seguimos até a Bodega Queirolo, onde pernoitamos, e fica a 10 minutos da Bodega Tacama. Lá você tem direito ao tour pela vinícola e degustação de vinhos e piscos, que esta incluso na estadia.
Em resumo, quando você for visitar o Peru, saiba que deve tirar um dia para os vinhos e piscos do país em uma experiência enogastronômica completa na Bodega Tacama, e já avisamos, separe espaço na mala, pois você vai levar um pisco pra casa.
Salud!